Mostrando a pornografia como ela (não) é
Nós (os autores) reconhecemos que existem coisas realmente “cabulosas” na pornografia, que não vimos nem queremos ver. Mas concordamos que essas coisas (as “cabulosas”) não são coisas de gente normal. Também reconhecemos, e desaprovamos, que alguns materiais depreciam a mulher ou ao homem.
Vamos começar citando um texto cristão conhecido, “Qual o problema em gostar um pouco de pornografia?”, do rev. Augustus Nicodemus, com alguns comentários.
Consumir deliberadamente material pornográfico é contribuir para uma das indústrias mais florescentes do mundo e que, não poucas vezes, é controlada pelo crime organizado. Segundo um relatório oficial em 1986, a indústria pornográfica nos Estados Unidos é a terceira maior fonte de renda para o crime organizado, depois do jogo e das drogas, movimentando de 8 a 10 bilhões de dólares por ano.
NICODEMUS, Augustus. Qual o problema em gostar um pouco de pornografia? Disponível em http://www.ipb.org.br/estudos_biblicos/index.php3?id=6. Acesso em 02 de julho de 2009.
Apenas páginas cristãs com referência a este texto trazem o dado de que “a indústria pornográfica nos Estados Unidos é a terceira maior fonte de renda para o crime organizado”. Uma outra fonte traz que as três maiores fontes de renda ilegal no mundo são o tráfico de drogas, o tráfico de armas e o tráfico de pessoas1.
Não são poucos os relatórios feitos por comissões de pesquisadores que denunciam a estreita relação entre a pornografia e a crescente onda de estupros, assédio sexual e exploração infantil nos países “civilizados”. Vários dos temas mais comuns em pornografia do tipo hardcore incluem cenas de seqüestro e estupro de mulheres, geralmente com espancamento e tortura, além de outras formas obscenas de degradação. A mensagem que a pornografia passa aos consumidores é que quando a mulher diz “não” na verdade está dizendo “sim”, e que se o estuprador insistir, ela não somente aceitará como também passará a gostar. Assim, a violência contra a mulher é exposta como algo válido e normal. A mulher é vista como objeto sexual a ser usado ao bel-prazer dos homens.
(…) Associado com a pornografia hardcore está o surto de violência sexual contra as mulheres e crianças nas sociedades modernas onde esse material pode ser obtido facilmente. Estudos por especialistas americanos mostram que existe uma estreita relação entre pornografia e a prática de crimes sexuais. Eles afirmam que 82% dos encarcerados por crimes sexuais contra crianças e adolescentes admitiram que eram consumidores regulares de material pornográfico. O relatório oficial do chefe de polícia americano em 1991 diz: “Claramente a pornografia, quer com adultos ou crianças, é uma ferramenta insidiosa nas mãos dos pedofílicos [viciados em sexo com crianças]“. A pornografia está estreitamente associada ao crescente número de estupros nos países civilizados. Só nos Estados Unidos, o número conhecido pela polícia cresceu 500% em menos de 30 anos, que corresponde ao aumento da popularidade e facilidade em se encontrar material pornográfico. Cerca de 86% dos condenados por estupro admitiram imitação direta das cenas pornográficas que assistiam regularmente.
(idem)
Desconhecemos esses “não poucos” relatórios. Conhecemos apenas dois estudos sobre o assunto, que dizem o contrário:
Wilson estabeleceu uma correlação entre a maior disponobilidade de material pornográfico (1960 – 1969) e delitos sexuais cometidos por adolescentes. Contrariamente ao que se esperava, o total de prisões de jovens por delitos sexuais diminui de 4% enquanto as prisões por outros crimes dobraram.
(…) Gebhard analisou as atitudes de 1500 delinquentes sexuais presos por delitos sexuais, comparando-os a delinquentes não-sexuais e a não delinquentes. Os delinquentes sexuais apresentaram o mais baixo nível de excitação perante os estímulos, exceção feita a homossexuais. Também notou-se que o delinquente sexual tinha uma experiência menos freqüente e menos intensa de pornografia, particularmente os que tinham se aproveitado de meninas pequenas.
EDITORA EDUCACIONAL BRASILEIRA. Enciclopédia pedagógica da educação sexual: a sexologia sem preconceitos. Curitiba: Editora Educacional Brasileira, pág. 142. Grifo no original. Do título “A pornografia e seus efeitos”.
Mas se dermos crédito ao dado de que “82% dos encarcerados por crimes sexuais contra crianças e adolescentes admitiram que eram consumidores regulares de material pornográfico”, acharemos perfeitamente plausível que o comportamento criminoso os tenha levado a também consumir pornografia, não que a pornografia os tenha levado a esses crimes.
Uma pesquisa feita por Josh McDowell em 22 mil igrejas americanas revelou que 10% dos adolescentes havia aprendido o que sabiam sobre sexo em revistas pornográficas. 42% deles disse que nunca aprendeu qualquer coisa sobre o assunto da parte de seus pais. E outros 10% confessaram ter assistido a um filme de sexo explícito nos últimos 6 meses.
(idem)
Quanto à falta de educação sexual no meio cristão, o autor propõe “desenvolver uma abordagem que trate da sexualidade de forma bíblica, positiva e criativa; tratar desses temas desde cedo com os adolescentes da Igreja expondo o ensino bíblico de forma positiva”. Disse bem, mas isto soa como dizer “já que não conseguimos proibir a educação sexual nas escolas, temos de administrar essa derrota”.
O autor cita no texto que pornografia pode ser encontrada no Brasil em “canais abertos de televisão”. Que haja banalização do sexo na televisão, nós concordamos. Mas será que entendemos a mesma coisa como pornografia?
Agora, vamos a um texto ilustrativo de Cristiane Cardoso. Vamos fazer comentários a esse texto que também servirão ao anterior:
Pornografia
Fiquei horrorizada outro dia quando visitei um fórum de discussões numa página do facebook sobre o filme Prova de fogo. As pessoas estavam condenando o filme pela sua mensagem contra a pornografia. De acordo com elas, isto é bom para o relacionamento sexual no casamento, pois apimenta mais as coisas. Eu queria gritar: “HOLA da terra! Que tipo de argumento é esse? Em que ano nós estamos?
Eis aqui o que eu penso sobre a pornografia. Ela é uma forma de denegrir a imagem das mulheres, do sexo e dos relacionamentos. Ela faz os homens parecerem animais e as mulheres um lixo. E por quê? Em quem você acha que o seu marido está pensando quando está na cama com você depois desse tipo de filme? Quem excita o seu marido, você ou o filme? E você ainda pensa que está tudo bem? Eu sinto muito por você – você de fato não enxerga o seu valor.
E para completar, este mal escancarado tem criado pervertidos dentro de boas famílias, os quais depois de um tempo, quando tudo se torna repetitivo, passam para a pornografia infantil. E já que a compulsão por coisas novas continua a lhes pedir por mais, eles se tornam estupradores. E o ciclo continua, bem diante dos nossos narizes, com a aprovação da maioria dos cidadãos deste mundo, pornografia não tem problema – dizem eles.
As mulheres não são objetos sexuais. As mulheres devem ser respeitadas, admiradas e cuidadas. Se você olha para a mulher da forma como eles retratam nestes filmes, vídeos, sites, revistas, rádio e canais de TV (note como esta peste se espalha!), você não a merece de forma alguma, seja ela uma amiga, uma esposa, uma namorada ou uma filha.
Na fé,
Cristiane Cardoso
CARDOSO, Cristiane. Pornografia. Melhor do que Comprar Sapatos, 12 de Março de 2009. Disponível em http://melhordoquecomprarsapatos.blogspot.com/2009/03/pornografia.html. Acesso em 02 de julho de 2009.
A pornografia comum não leva à pedofilia. Seria estranho um homem se interessar por crianças depois de se acostumar com corpos maiores com seios mais desenvolvidos.
A pornografia comum não leva ao estupro. O estupro não vem mais da vontade de fazer sexo do que do desprezo à mulher em geral ou da vontade de se vingar da vítima em particular. Claro que certas cenas são inspiradoras, mas quando realizá-las não é possível, o alívio pode vir de outras formas. Duvidamos que alguém se reconheça num desses textos que mostra a pornografia comum levando a crimes ou perversões sexuais.
A pornografia comum não leva ao desrespeito à mulher. Quem não tinha antes uma visão pejorativa da mulher não se agradará de uma cena ou palavras onde ela é desrespeitada, nem de imediato nem com a repetição. Somos feministas, mas nem por isso dizemos que uma cena de sexo é desrespeito à mulher e ponto final. Reconhecemos que a mulher não se resume ao seu corpo. Aliás, nós acreditamos que desrespeito à mulher e não reconhecer que uma mulher é mais do que um corpo é acreditar que sua qualificação moral anda na direção contrária a quanto ela gosta de sexo ou quanto e com quantos ela já usou seu órgão sexual. Nós, e algumas pessoas que gostam de pornografia (normal, bem entendido), achamos uma violência contra a mulher que Deus tenha achado digna de morte a mulher que perdeu a virgindade antes do casamento (Dt 22. 13 – 22), ao passo que os cristãos mais devotos crêem que alguma coisa, pelo menos na época, poderia justificar tal mandamento.
O combate à pornografia causa males reais sob a alegação de combater males alguns reais e outros imaginários. Uma professora foi suspensa na Itália, em novembro de 2007, por ter gravado vídeos eróticos2. Na China, o governo fechou 91 páginas por oferecer “conteúdos obscenos”3 e determinou que os computadores fossem vendidos com um programa para bloquear tais conteúdos4. Não é de surpreender que este seja o mesmo país onde um número estimado de trinta mil fiscais vigiam fóruns de debates e apagam comentários sobre temas proibidos5, sendo que quase todas as conexões do país passam por dezessete cabos6. Concordamos que a pornografia infantil é problemática e deve ser combatida, mas a educação sexual, o ensino de valores sólidos e a conquista da confiança dos filhos pelos pais são uma medida mais eficaz que bloquear o acesso das crianças a isso ou aquilo. Os filtros anti-sexo para proteger os menores são os protótipos de filtros contra qualquer conteúdo que convenha a um governo ou uma religião proibir.
E pornografia para pessoas normais existe. Para quem quiser conhecer grupos de material sexual sem perversões, nós temos no Sistema Paraíso Concreto os grupos Paraíso Concreto Sexo e A Vez das Mulheres no Grupos e no Google, sendo estes dois exclusivos para mulheres heterossexuais. Estes grupos só são visíveis para membros, mas parte do conteúdo está nos grupos Sexo e Conversa e A Vez das Mulheres 2.
O que um cristão escreve sobre pornografia não é dirigido a quem a conhece e a procura, mas a quem não a conhece nem quer conhecer, que são exatamente os cristãos. O cristão mediano conhece mal outros ramos do próprio Cristianismo, e pior ainda quem não leva seu Deus tão a sério quanto ele. Vício em pornografia até existe, e deve ser tratado. Mas o que se diz no meio cristão sobre pornografia não é para que um cristão possa ajudar um compulsivo e evitar o perigo de ele mesmo se tornar um, mas para convencer homens e mulheres sexualmente insatisfeitos e jovens que cresceram levados à igreja pelos pais a continuarem a demonizar o sexo.
Imaculada Virgínia Pereira Souto e Walter Nunes Braz Júnior
O Reino de Deus – Sistema Paraíso Concreto
Também disponível (com fotos) em http://avezdasmulheres.thumblogger.com/home/log/2009/29/parte-1-mostrando-a-porno.html e http://avezdasmulheres.thumblogger.com/home/log/2009/29/parte-2-mostrando-a-porno.html
1 NEGRÃO, Patrícia. Contra o tráfico de mulheres e crianças. Cláudia, ed. Abril, [s. d.]. Disponível em http://claudia.abril.com.br/materias/3551/?sh=31&cnl=35. Acesso em 02 de julho de 2009.
2 EFE. Professora italiana divulga vídeos eróticos e é suspensa. G1, 22 de novembro de 2007. Disponível em http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL189048-5602,00-PROFESSORA+ITALIANA+DIVULGA+VIDEOS+EROTICOS+E+E+SUSPENSA.html. Acesso em 02 de julho de 2009.
3 EFE. Governo chinês fecha 91 sites com pornografia. G1, 11 de janeiro de 2009. Disponível em http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL951068-6174,00-GOVERNO+CHINES+FECHA+SITES+COM+PORNOGRAFIA.html. Acesso em 02 de julho de 2009.
4 AP. PCs vendidos na China terão software para bloquear pornografia. G1, 08 de junho de 2009. Disponível em http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1186714-6174,00-PCS+VENDIDOS+NA+CHINA+TERAO+SOFTWARE+PARA+BLOQUEAR+PORNOGRAFIA.html. Acesso em 02 de julho de 2009.
5 LORES, Raul Juste. Internet na China é monitorada por 30 mil pessoas, que até apagam posts. Folha Online, 10 de agosto de 2008. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u431438.shtml. Acesso em 10 de julho de 2009.
6 GARATTONI, Bruno. A outra Muralha da China. Superinteressante, ed. Abril, nº 255, agosto de 2008. Disponível em http://super.abril.com.br/revista/255/materia_revista_290808.shtml?pagina=1. Acesso em 22 de dezembro de 2008
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